|
SABORES
DA MESA GAÚCHA
 |
É
praticamente imediata a associação entre o Rio Grande do
Sul e o churrasco, que é consumido quase como em um
ritual, sobretudo aos fins de semana em reuniões
familiares ou de amigos. Logo veremos, porém, que o gaúcho
saboreia muitos outros pratos.
Na
Campanha, a carne de consumo diário é a de ovelha.
Na
região serrana, nas cidades e no resto do Brasil, a carne
de ovelha é impropriamente chamada "carne de
carneiro".
Carneiro,
para o gaúcho, é o macho da ovelha, isto é, um
animal destinado à reprodução. Conforme o número de
pessoas existentes na fazenda, abate-se um ou mais
"capões" (macho de ovelha castrado) a cada dois
dias aproximadamente. Após courear (extrair o couro), as
carnes são preparadas em forma de churrasco, assadas ao
calor das brasas em grelha ou espeto.
|
O
primeiro assado é o sangrador - carne de pescoço
onde se cortam as jugulares da ovelha para matá-la.
Depois, as carnes são ensopadas, principalmente o espinhaço,
na maneira simples da cocção em água fervendo, ou
combinadas com outros ingredientes. Dos quartos, mais
polpudos, tiram-se os bifes ou prepara-se o charque, que
é muito apreciado. A cabeça é assada para os peões e a
gurizada que a disputam entre si. Também se faz lingüiça
de carne de ovelha misturada à carne de gado.
Afora
as grandes estâncias, podemos dizer que o abate de gado
vacum se verifica quinzenal ou mensalmente, conforme o número
de pessoas da família e empregados. Em propriedades
menores, o dono só determina o abate deste gado para o
fim do outono, objetivando, principalmente, a feitura do
charque - carne seca ou carne-de-sol, como é chamado em
outras regiões do país - para provimento ao longo do
inverno.
Na
Campanha, depois de coureada a rés abatida, extrai-se o
"matambre", carne que fica entre o couro
e a "manta", cobrindo as costelas. Com o
matambre, faz-se o primeiro churrasco. Antes de assar, o
gaúcho "surra", isto é, bate o matambre sobre
a própria rés ou num moirão ou qualquer outra madeira-,
bate forte para amaciar. Enquanto assa, segue carneando.
A
parte preferida para o churrasco é o costilhar sem a
manta. Partes de peito com granito", assim como da
"agulha", são usadas para "fervidos".
Além destas carnes, vão para a cozinha o "tatu",
o "lombo" (filé curto), o "filé
mignon", a "picanha" e o
"aleatre". As outras carnes são salgadas.
Alguns ossos, principalmente os da perna, providos de
"caracu" (tutano), os do alcatre e da paleta são
aproveitados para fervidos e sopas; o resto vai para a
extração da graxa bovina. A "rabada"
(cauda de boi, coureada e desarticulada), é frita na
panela, ensopada simples ou com batatas ou mandioca. Das
patas, extraem-se o azeite (óleo) geléia de mocotó. Com
ela, faz-se o prato do mesmo nome. Se a rês abatida é fêmea,
salga-se o ubre para depois adicioná-lo ao feijão. O
ubre também pode ser saboreado assado ou frito. Se a vaca
está prenhez adiantada, o gaúcho aproveita o nonato.
Cozido e mexido com farinha, o prato é chamado de "terneiro"
e, na fronteira, "tapichi".
Por
alguns dias, há fartura de carne fresca. Além de
fervidos e as comem-se bifes, carne frita na caçarola,
guisadinhos e os "'miúdos" ou
"fressuras".
Depois,
volta-se à ovelha, diariamente, e, no inverno, com o gado
magro carneia-se também, com mais freqüência, o porco
gordo, cevado, carne no verão é muito perecível. Além
do porco, nessa época é usada a carne de galinha.
No
período da castração, os testículos de touro são
assados direitamente nas brasas. Usa-se também fritá-los,
acrescentando-lhes ovos de galinha ou preparálos mexidos
com farinha.
Normalmente
quando, numa fazenda, se carneia o gado vacum, já se tem
devidamente cevados, um ou mais porcos adultos capados.
Sangrado
o animal, o talho é imediatamente tapado com um sabugo de
milho. Depois de pelado, o porco é aberto. Com uma
vasilha, colhe-se o sangue retido pelo tampão. E o que
vai servir de matéria-prima para o fabrico da "morcilha",
"morcilha de sangue" ou "morcilha
preta", recebe como invólucro as tripas do animal.
Do
"buchinho", parte menor do estômago, sai
o invólucro para o "queijo de porco" ou a
mistura com a carne de vaca, que é a mais comum. Dai
carnear-se o bovino e o suíno para aproveitamento
associado.
Da
gordura do porco são extraídos o toucinho e a banha. Dos
resíduos desta última - alguns com porções de carne
meio torrada -, colhe-se o torresmo.
As
carnes não consumadas em pratos especiais são
transformadas e embutidas. A cola (cauda), patas, orelha e
couro (pele) são salgados para ulterior aproveitamento.
As carnes da cabeça são extraídas para a morcilha
branca ou o queijo de porco.
Salvo
a zona litorânea e as cidades ribeirinhas, onde a pesca
é praticada profissionalmente, de maneira artesanal, o
peixe não é frequente à mesa do gaúcho. O gaúcho
consome peixe ocasionalmente, em alguma pescaria de fim de
semana ou nos feriados de Páscoa.
De
couro e água doce, os peixes mais comuns são o pintado,
o jundiá, o pati e o surubi. De escamas, há o dourado, a
piava, o grumatã e a traíra. Os peixes de mar mais
consumidos são o linguado, a tainha, o miraguaia, o
burriquete, o peixe-rei, etc. Outras espécies são
consumadas, mas estas são as mais apreciadas.
Os
peixes de couro são preferidos para ensopados, servidos
invariavelmente com um pirão feito com farinha de
mandioca. Os de escamas são muito apreciados fritos ou ao
molho de escabeche. Entretanto, qualquer um desses peixes
pode ser preparado frito ou ensopado. Para as fritadas de
aperitivo, usam-se peixes miúdos - lambaris (de água
doce) e sardinhas (de mar).
Muito
usada é a sopa de cabeça de peixe. O bacalhau da
Campanha é o peixe salgado das pescarias: "charque
de peixe", como dizem na região.
Registre-se
que esses nomes populares de peixes apresentam pequenas
variações no Rio Grande do Sul. Em relação ao restante
do país, porém, essas diferenças são muito
significativas.
Dos
derivados da carne, o charque é o mais comum e o mais
saboroso. Pode ser saboreado assado, quando fresco, frito
na panela ou guisado. Desta maneira, é feito simples ou
cozido com legumes ou verduras picadas ou cereais. É o
ingrediente fundamental para o preparo do "arroz
de carreteiro" e a "paçoca de charque"
ou "roupa velha", muito semelhantes,
ambos socados no pilão. Na região serrana, esses pratos
são acrescidos do pinhão, que é pilado junto. Como
complemento do feijão ou feijoada, é muito usado o
"desfiado de charque."
Do
boi, tira-se a "tripa grossa", "tripa
gorda" ou "tripa cancheira" nomes dados ao
reto dos animais. Sempre precedida de uma demorada fervura
para amaciar, a "tripa" é servida na grelha ou
espeto, frita na panela, simples ou recheada.
O
mondongo (bucho, dobradinha) requer fervura
demorada antes de se iniciar seu preparo. Cortado em
pequenas tiras, é ensopado simples ou com batata-inglesa.
Em guisado, é picado miudinho e mexido com farinha de
trigo ou de mandioca. As partes gordas são cortadas em
pedaços grandes e fritas na panela.
A
soalheira é salgada e pendurada para ser-vir de
"coalho" para o leite, Alguns a comem assada ou
frita.
Os
rins são assados na grelha ou no espeto. Podem ser
servidos como guisado simples, fritos na panela e
refogados com farinha de trigo ou mandioca.
O
fígado é servido em bifes simples ou guisadinho mexido
com farinha. Também fica muito saboroso assado na grelha
ou aferventado com sal para ser consumido frio. O coração
é preparado da mesma maneira que o fígado. Os miolos não
são aproveitados na Campanha. A cabeça, assim como
alguns miúdos e carnes inferiores, é dada aos
carneadores - empregados pobres que auxiliam a carnear -,
ou então é partida e levada a ferver com outros ossos
para extração da graxa.
A
língua deve ser fortemente "surrada", batida,
antes de ferver, para largar o couro. Come-se recheada,
ensopada com batata-inglesa ou ervilhas, em fatias e
coberta com ovos (à dorê).
A
"passarinho" (baço de rês) é assada na grelha
ou no espeto.
Da
ovelha, os miúdos mais comumente usados são os rins, o fígado
e o coração. Preparam-se os miúdos de ovelha tal como
os de boi. Uma opção é picar tudo junto e fazer
guisadinho mexido. Também se come a coalheira frita ou
assada. Do sangue, faz-se o sarrabulho.
Os
miúdos de porco são aproveitados parte para a morcilha
(morcela) branca, parte para a morcilha preta. Raramente são
consumidos em separado. Tripa grossa, bucho, rins, fígado
e bofes não são aproveitados. Do sangue, também se faz
o sarrabulho.
As
caças são ocasionais, tanto as de pêlo como as de penas
e estão subordinadas a épocas, com proibição de
algumas espécies.
Não
consideramos essas carnes neste trabalho por fugirem à
alimentação cotidiana do gaúcho, quer na Campanha, quer
nas cidades.
Dos
cereais, o feijão preto é o mais comum entre os gaúchos.
É o ingrediente básico da famosa feijoada, cujas sobras
são aproveitadas para preparar o "feijão mexido"
com farinha de mandioca. O feijão branco é usado
"ao natural", isto é, cozido simples. Outros
tipos são o fradinho, o cavalo, o mourinho, o carioca,
todos de presença variável.
O
feijão preto cozido junto com o arroz resulta num prato
singelo denominado "branco e preto" - O feijão
mexido com arroz no mesmo recipiente é chamado
"carijó".
O
arroz cozido simples é presença diária na mesa do gaúcho.
Com o guisado de charque, compõe o tradicional
"arroz de carreteiro"; com galinha,
transforma-se na famosa "gatinhada", ou
simplesmente "arroz com galinha"; com lingüiça
cortada ou desmanchada, é o "arroz com lingüiça";
com carne fresca, alguns chamam de "maria-rita".
É preparado também com couve ou repolho, com guisado de
mondongo e mais raramente com pêssego. É muito usado no
preparo de canjas e sopas.
A
lentilha é preparada de forma bem simples, podendo ser
adicionados pedaços de batata-inglesa e alguma carne
salgada.
O
milho verde é consumido cozido ou assado nas brasas. As
espigas inteiras ou em pedaços completam sopas e
fervidos. A canjica (milho seco quebrado) é cozida com
charque ou galinha, bem como o trigo.
Legumes
como mandioca ou aipim, batata-doce, batata-inglesa,
chuchu e vagem (do feijão-verde), além de constituírem
pratos independentes, complementam fervidos, assados e
sopas.
A
abóbora-moranga é cozida em pedaços grandes, com
casca, e assim servida. Como complemento é descascado e
feita em pedaços para acompanhar outros pratos. A abóbora-menina
é servida da mesma forna que a abóbora-moranga. É o
ingrediente básico para o preparo do quibebe. A
abobrinha verde é muito frágil e de rápida cocção. É
cozida inteira, com casca. Também complemento outros
pratos quando descascado e cortada em pedaços. A abóbora-moranga
tem a casca bastante dura e é saborosíssima. E servida
cortada em gomos e cozida com a casca.
As
verduras, além de constituírem pratos próprios,
acompanham outras iguarias como o arroz, fervidos,
guisados, ensopados e sopas.
A
couve é cortada em tiras estreitas, frita na banha e
cozida em água dissorada das próprias folhas. Em tiras,
complemento guisados ou entra no cozimento do arroz. As
folhas inteiras são usadas para fervidos. Alguns põem
folhas partidas em pedaços grandes no feijão. O repolho
é usado da mesma maneira. A mostarda é aferventada
inteira, Fortada e batida com o fio da faca até
aproximar-se do estado pastoso. E frita em banha e cozida
no próprio caldo.
Entre
as farinhas, a de mandioca constitui o acompanhamento
indispensável do churrasco. É muito usada no feijão e
em outros pratos, caldeados ou não. É também o
ingrediente básico de farofas e pirões. A farinha de
milho é usada para fazer angus, salgados ou doces, e
cuscuz. Com a farinha de trigo preparam-se massas em
geral. Ela é a liga comum para ovos batidos, guisados e
bolinhos. É usada para engrossar caldos e, nas frituras,
especialmente peixes, é usada como cobertura.
Os
ovos de galinha são usados quase que com exclusividade. São
consumidos fritos ou endurecidos na água fervendo. São
empregados em ligas, mexidos, coberturas e omeletes.
As
massas mais comuns são o talharim e o espaguete. Ainda há
quem as prepare em casa. Cozidas em água e sal, são
depois escorridas. Servem-se com molho de carnes menos
gordas. E muito comum o consumo de massa com galinha ou
com linguiça. Também são usadas em sopas.
As
sobras de alimentos são aproveitadas. Assim temos
tradicionalmente: do arroz, bolinhos; do feijão, sopa ou
feijão mexido; das carne desfiado, de carne frito e
refogado. Quando sobra "um pouco de tudo",
prepara-se a "mexidela", "mexido" ou
"revirado". Basta transformar as carnes em
guisadinho, misturar com as outras sobras e refogar na
panela ou frigideira.
De
um modo geral, na vida diária, a alimentação do gaúcho
consiste numa mescla dos hábitos alimentares dos vários
povos que compõem sua cultura.
Extraído
de Cozinha Gaúcha - uma mistura muito bem feita
Edição SENAC/RS
Receitas
tu encontras no Gaúcho®Site, integrande
do grupo Pampas Informativo On Line
|